quarta-feira, 18 de maio de 2011

Copy Paste I

"Um homem não tem que aprender a apaixonar-se. Muito pelo contrário, é urgente aprender a desapaixonar-se cedo, logo na adolescência se possível, e quando o Amor é ainda um pássaro que se estatela no chão por bater as asas dessincronizadamente. É que apaixonar-se acontece a cada esquina, a cada olhar, a cada cheiro ou beijo que se dá. Um tipo sai de casa sem casaco, atravessa a rua e vai tomar café ao tasco da frente só para descontrair. Quando regressa já se apaixonou três ou quatro vezes. É tramado.

Desapaixonar-se é essencial para que a paixão não adoeça um homem. O método, difícil de atingir, passa por consegui-lo nos cinco minutos seguintes. Se passar disso a paixão começa a ser Amor e a espalhar-se no corpo como um vírus. As pernas e os braços tremem, surgem suores frios e por fim o coração entra numa taquicardia incontrolável. É uma merda, mas também é verdade.

A paixão é como o veneno duma cobra: o antídoto ideal passa por ela mesma mas em doses menores. É por isso que nos cinco minutos seguintes a uma paixão, o melhor é procurar imediatamente outra. E depois outra e outra até conseguir matá-la por asfixia. Às vezes consegue-se, principalmente quando se anda em locais movimentados. Depois duma paixão vem sempre outra que a enfraquece. Ainda bem.

Passei anos a tentar aprender a desapaixonar-me e nunca o consegui. Uma vez pensei que sim e comecei a sair à rua como se fosse o melhor condutor do mundo. Descuidei-me. Cedo percebi que não o era. Bastou-me ir jantar sozinho a um restaurante e apaixonei-me pela empregada de mesa, do balcão, pela mulher que comia peixinhos de horta à minha direita e pela que comia bifinhos com cogumelos à minha esquerda. Tudo ao mesmo tempo, nem sequer pude usar nenhuma como antídoto. Cobras! Nessa noite fechei-me em casa e afastei-me das janelas.

Acho que fiquei uns quatro dias assim, como se estivesse de quarentena. Foi quando percebi a coisa A melhor forma de um homem se desapaixonar é apaixonar-se de vez. Usar o Amor como vacina. Agora saio à rua, apaixono-me pela mulher que atravessa a passadeira ao meu lado mas não tenho medo. Nos cinco minutos seguintes, mesmo que não encontre antídoto sei que já estou vacinado. O Amor é como as cobras."


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